18:25

o despertador tocou. eu adiei-o durante vinte minutos. não queria sair da cama. simplesmente não tinha coragem suficiente para enfrentar o dia que me aguardava. levantei-me da cama com esforço, e fui até à cozinha, ainda enrolada no cobertor. olhei para o teu retrato, aquele que está pendurado na parede paralela ao frigorifico... ah, como os teus olhos são doces e têm um ar tão protetor. a esta altura, mil e uma recordações me passaram pela minha mente. comecei por fazer o pequeno-almoço e sabes o que tomei? café com leite, bem ao modo como tu gostavas: quentinho, apropriado para a garganta numa manhã gélida como aquela. despachei-me, e apanhei o cabelo bem cá em cima, para realçar as minhas bochechas. aquelas que tu gostavas de apertar. vesti as primeiras peças de roupa que me vieram à mão, e fui em direção à porta para ir embora. peguei nas chaves, e fechei a porta com alguma insegurança. olhei para o telemóvel, e meti-o na mala outra vez. num instinto de consciência, peguei novamente no telemóvel e vi que estava na hora de o autocarro partir. corri como se não houvesse amanhã. felizmente o motorista esperou por mim. "Bom dia" - disse ele com um ar dócil. "Obrigada" - respondi eu, ainda sôfrega. os meus lábios estavam ressequidos. sentei-me no primeiro lugar que encontrei, e à minha frente estava um homem invejavelmente bem vestido, devia ter os seus cinquenta e poucos anos. o seu casaco era castanho, e por baixo trazia uma camisa ao xadrez branca e bege. tinha aliança na mão esquerda, o que indicava que era casado. eu e a minha mania de conspirar, começámos a imaginar como seria a vida daquele homem: será que era feliz, tinha filhos, emprego estável ou era apenas mais uma vítima desta sociedade hipócrita?

Ele olhou desconfiado para mim. Não era para menos, apesar de estar de óculos de sol, o mais provável era que ainda assim se sentisse observado. Parei com a minha imaginação fértil e vagueei durante uns momentos na música que me sussurrava aos ouvidos. O meu coração estava apertado. afinal de contas, não sabia o que esperar. estava com medo. não sabia como encarar esta despedida. cheguei ao destino, e entrei por aquelas portas de hospital que já me eram tão familiares. as enfermeiras já me conheciam, já todos me cumprimentavam. já parecia a minha segunda casa. aqueles corredores que outrora me assustavam, agora confortavam-me. quando cheguei ao teu quarto, estavas na mesma posição desde a última vez que te vi, que foi nada menos, a noite anterior. mais uma vez, ao olhar para ti, as memórias invadiram o meu peito e tornaram tudo o que já foi real, ainda mais bonito. não consegui conter as lágrimas e entrei no quarto. segurei a tua mão, como se ali estivesse a minha vida. aliás, tu eras a minha vida. e a minha vida estava prestes a desaparecer. nunca tinha sentido isto antes: esta sensação de incapacidade estava-me a matar e eu não sabia mais como agir. eu precisava de ti. sentei-me ao lado da tua cama, e encostei a minha cabeça ao teu peito, como tu fazias quando eu era pequenina. apertei a tua mão com força, e pedi-te "não me deixes". tu não tinhas reação. o coma não me deixou dizer-te aquilo que eu nunca te disse em toda a tua vida. o sinal de vida parou. tu não estavas mais comigo. apenas te mantenho vivo no meu coração.

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